Por Bebeto Andrade
Agenor ia ser pai pela primeira vez. Recebeu a notícia por telefone, e era sábado de carnaval. Depois do churrasco da tarde, organizado pela turma do escritório, os amigos estavam num barzinho tomando cerveja, Agenor de bermuda, chinelos e sem camisa. Samanta, a esposa, já fora às pressas para o hospital. Era preciso voar para lá.
O problema era que Agenor estava bêbado, mal se equilibrava sobre as pernas e só conseguia repetir uma frase, com a voz pastosa e embargada:
- É um menino... Solidários, os amigos colocaram Agenor dentro de um carro, levaram-no para c sua casa e o meteram debaixo do chuveiro. Alguém mais prestativo resolveu passar um café, mas a água entornou da chaleira e provocou uma pequena confusão na cozinha. Enquanto isso, Agenor repetia sem parar:
- É um menino... Depois de algumas tentativas frustradas, conseguiram enfiar Agenor dentro de um terno amarrotado, mas não houve quem atasse um nó decente na gravata amarela. Visto de perto, Agenor lembrava um sujeito velho e cansado, depois de uma viagem de ônibus de São Paulo a Cruzília, sem escalas. E repetia abobalhado:
- É um menino... A comitiva então seguiu para o hospital, Agenor bamboleando no banco de trás do carro. Os amigos davam tapinhas em suas costas, abraçavam-no com força e gritavam seu nome, aclamando o futuro papai como um herói. E Agenor, introspectivo e sério, repetia maquinalmente:
- É um menino... Em questão de minutos, o carro parou no estacionamento do hospital e o bando, digo, o grupo de amigos invadiu o prédio com a fúria de uma falang e de bárbaros. Foram imediatamente para a recepção e interpelaram a moça do atendimento:
- Samanta! – grunhiu Agenor. – Procuro por Samanta Ribeiro de Souza!
Enquanto a recepcionista conferia nos registros do computador, a turma ensaiou aquela famosa musiquinha: “Agenor é bom companheiro...” Entretanto, diante dos olhares incriminadores das outras pessoas que aguardavam, calaram-se e ficaram sorrindo feito idiotas. E Agenor repetiu:
- É um menino...
Foi quando a recepcionista, muito educadamente, deu o veredicto:
- Aqui está, Samanta Ribeiro de Souza... Deu entrada às sete e meia, mas já foi liberada. O senhor veio buscá-la? Agenor não entendia mais nada. Limitou-se a perguntar “como assim”, e ouviu da moça do hospital:
- Tecnicamente, é o que chamamos de um alarme falso. O porre de Agenor dissipou-se na hora, e ele correu para o quarto onde estava Samanta. Lá, beijou a mulher e lhe disse:
- Eu te amo. Mas, da próxima vez, espere passar o carnaval pra ter um alarme falso.
O filho nasceu uma semana depois, e certamente será um ótimo folião quando crescer.