Por Bebeto Andrade
No meio da aula, a professora pede ao Joãozinho que fale uma palavra com a letra P. Lá no fundo da sala, a Mariazinha comenta com uma colega: ‒ Aposto que ele vai falar um palavrão... Joãozinho pensa um pouco e diz “política”, e a Mariazinha conclui: ‒ Eu não disse?
A piadinha pode não ser engraçada, mas dá uma ideia do sentimento dominante em relação à política. Digo “sentimento dominante” porque nem todas as pessoas pensam mal da política, há exceções: os políticos e os amigos deles. No mais, a população parece ter perdido a crença na política com P maiúsculo, pelo menos desde Juscelino Kubstichek, como afirmam alguns, ou desde a chegada de Cabral, como sustentam outros.
Um fato é inegável: a política brasileira vem reproduzindo vícios vergonhosos nas últimas décadas. Eu, que não tenho boa memória, posso citar alguns. Sarney assumiu a presidência da república graças à morte de Tancredo Neves, mas nunca escondeu sua ligação com os militares. Collor se elegeu presidente prometendo acabar com os marajás, mas acabou se revelando um deles, talvez o maior. Fernando Henrique Cardoso derrubou a inflação, mas não teve controle sobre a privatização de algumas importantes empresas públicas. Lula promoveu a inclusão social, mas disse que não viu o esquema do mensalão. Dilma... bem, ainda é cedo pra falar.
É claro que ninguém exige uma política de santos honestos e imaculados, mas já é hora de se pensar num governo sem escândalos e denúncias bombásticas, que só aporrinham a vida e a paciência dos eleitores. Do jeito que está, parece que os governos já vêm com muitos escândalos de corrupção embutidos no pacote, como um pecado original, e até a imprensa denunciá-los é questão de tempo. Será que os políticos não podem pensar em administrar a nação, primeiro, e depois enriquecer um pouquinho, se possível?
E olhe que o fenômeno da pouca-vergonha não atinge apenas Brasília e as capitais dos estados. Só pra se ter uma ideia, pouco mais de um ano após a posse, 107 prefeitos já perderam o mandato no Brasil, o que dá uma média de 6,6 prefeitos cassados por mês. É uma estatística cruel, mas que só reforça a necessidade de se discutir política, de preferência com P maiúsculo, antes que a palavra se torne um palavrão impronunciável, como na piada do Joãozinho.